OTÍLIA ARANTES: "Uma Estratégia Fatal"

Resumo do livro da Arantes, O. B. F. “Uma estratégia fatal – A cultura das novas gestões urbanas” em A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Otília Arantes, Carlos Vainer, Ermínia Maricato. 4 Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2007 (informação completa, né… hehehe)

Otília Arantes discorre neste primeiro texto sobre a lógica do que está sendo chamado de “a terceira geração urbanística”. Defende a idéia que na verdade não aconteceu de fato uma ruptura com o formalismo anterior dos modernistas, mas decerto há uma continuidade com foco no “gerenciamento assumidamente empresarial” e na “culturalização do mercado”.

A primeira contradição apontada pela autora ocorre do fato deste “novo” planejamento urbano – dito estratégico – além de reativar a ideologia modernista do plano, incorpora também a dimensão cultural do movimento imediatamente anterior, que por princípio viria num sentido contrário e reativo a esta mesma ideologia modernista. Daí surge a questão: “políticas urbanas de matriz identitária podem ser estrategicamente planejadas? Algo como calcular o espontâneo ou derivar a integridade ou autenticidade de uma escolha racional que implica considerações custo/benefício, qualidade/preço etc.”

Esta fusão só se tornou possível pela distorção do ingrediente “cultura” dentro da receita do Plano Estratégico: a cultura uma vez convertida e resumida a uma imagem, ou seja, representação e interpretação, adquire a função de moldar uma coletividade e ao mesmo tempo propiciar o desenvolvimento do um sistema de negócios responsável por prover esta mesma cultura (agora convertida em imagem-produto) ao mercado local e internacional. Assim ganha sentido “a ancora identitária da nova urbanística” e de quebra cria a segunda contradição: a cultura, lembra Otília, “que nos primórdios da Era Industrial se cristalizava como esfera autônoma dos valores antimercado”, foi espetacularmente capturada pelo sistema que a priori ia de encontro, trabalhando servilmente a favor dos interesses deste. O “encontro glamouroso”, entre Cultura e Capital, Otília chamará de “culturalismo de mercado”.

Terceira contradição do Planejamento Estratégico: o estado que antes trabalhava na regulamentação e controle dos usos e espaços das cidades, para combater exatamente a especulação, dentro deste novo formato, ao contrário, trabalha no intuito de desregulamentar e até mesmo oferecer incentivos ao livre desenvolvimento do mercado especulativo.

O conceito original do Planejamento Estratégico surgiu nos Estados Unidos na década de 70 com a transposição de metodologias empresariais ao planejamento urbano, com o objetivo de transformar as cidades em “máquinas de produzir riquezas” e ao mesmo tempo apaziguar os ânimos de uma população em crise. Após a morte de Martin Luther King, em 1968, a cidade de Baltimore foi tomada por inúmeras revoltas e quebradeiras ocasionadas principalmente pelas péssimas condições econômicas e de preconceito racial a  que estava  submetida a população negra. A fórmula encontrada para assegurar a “governabilidade” da cidade pelos políticos e elite empresarial foi “capturar” as manifestações da cultura negra, elevando-as ao patamar de ingrediente da identidade/diversidade étnica de Baltimore: “A substituição pós-moderna do espetáculo urbano como forma de resistência ou de festa popular revolucionária pelo espetáculo como forma de controle social”. A operação resultou na “comercialização institucionalizada de um espetáculo mais ou menos permanente na construção de Harbor Place, lembrando que os próprios grupos étnicos começaram a lucrar com a venda da etnicidade, na falta de mercado para sua força de trabalho”.

Surge assim um exemplo bem sucedido de intervenção urbana que alcançara ao mesmo tempo dois bons resultados: neutralizou a força de uma população revoltosa (sem, no entanto resolver de fato o problema social) e transformou Baltimore numa cidade americana de grande sucesso comercial e empresarial.

Em meados da década de 70, um novo tipo de planejamento defendido primeiramente por Harvey Molotch, depois melhor desenvolvido por Peter Hall, trataria de “reforçar que a Cultura passava a ser um dado essencial na coalizão de classes e interesses, responsável pela máquina urbana de crescimento“: Origem do tal “orgulho cívico” ou “patriotismo de massas” que encontraremos nas cartilhas do Planejamento Estratégico.

Em defesa da preservação ou difusão da “Cultura” citadina seriam justificados todos os tipos de intervenção de caráter declaradamente elitista. Para a autora a gentrificação das cidades pode ser considerada a apoteose do Planejamento Estratégico. Apesar do uso ostensivo de outras nomenclaturas dadas ao “fenômeno” – revitalização, reabilitação, revalorização, reciclagem, requalificação – ainda assim a atitude “revanchista” mal consegue ser encoberta. É preciso não perder de vista a origem militar da palavra estratégia, que implica necessariamente uma disputa entre adversários. E nesta retomada de posse do centro das cidades pela elite, fica claro contra quem se está rivalizando na guerra social contemporânea:

Na arena propriamente urbana, revanche contra trabalhadores precarizados, imigrantes, sem-teto, etc., enfim, todo tipo de classe perigosa que possa ameaçar o sono dos vencedores de ontem. (…) À medida que a cultura passava a ser o principal negócio das cidades em vias de gentrificação, ficava cada vez mais evidente que era ela, a cultura, um dos mais poderosos meios de controle urbano no atual momento de reestruturação da dominação mundial.

Otília reforça mais uma vez, no tópico: “Os dois turnos do Cultural Turn” a conversão estratégica da cultura de resistência (aostatus quo e à racionalidade modernista)  à “culturalização de mercado”. No clássico de Daniel Bell “As Contradições Culturais do Capitalismo” de 1976, já era sinalizado a possibilidade de se chegar a uma situação de ingovernabilidade das cidades graças à crise gerada pelos choques entre cultura (a de resistência) e o sistema materialista-capitalista da época.

A percepção que a crise capitalista seria de teor cultural, ocasionou uma sábia adaptação no funcionamento do sistema: a “cultura hostil” seria então incorporada ao sistema de valores de troca, incluindo os protagonistas da “classe-ameaça” transmutando-os em “intermediários culturais”. Deu-se então a metamorfose estratégica da sociedade-salarial à sociedade-cultural: o pós-materialismo reivindicado no fim da década de 60, a princípio reativo, foi se tornando pró-ativo e cooperativo ao capitalismo agora culturalista.

Como não poderia faltar na construção de mais uma cultura de apologia da classe dominante, surgem novamente as figuras dos grandes arquitetos e artistas, as obras colossais de celebração do poder que vão compor assim a cenarística da cidade-espetáculo. Otília exemplifica as “variações em torno de um mesmo modelo” passando por Paris (que substitui o Estado-Social pelo Estado Empresário Cultural); Barcelona (que sistematiza os conceitos do Plano Estratégico e o aproveitamento de oportunidades como grandes eventos internacionais na promoção publicitária das cidades); Bilbao (o paradoxo denuncia: a identidade necessária ao sucesso da cidade se concretiza na “extraterritorialidade” do museu de Genry, um americano projetando o marco simbólico do novo país Basco); Lisboa (eventos e mais eventos na capital européia da “fracassomania” para a autocontemplação celebrativa: “nada se expõe além da própria exposição, tudo para anunciar que afinal Portugal é Portugal”) e por fim Berlim (que reconstrói a potente capital européia, agora integrada, com uma miscelânea inigualável de grifes arquitetônicas.

Otília conclui o texto alertando que do ponto de vista de um país subdesenvolvido nos deparamos com problemas ainda mais significativos na incorporação das políticas do Planejamento Estratégico: “estamos diante da reposição da armadilha clássica do subdesenvolvimento, ou seja, da modernização sem desenvolvimento, isto é, sem homogeneização social”.

Fonte: http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1139