O Mergulho

“A história de uma vida, de qualquer vida, é a história de um fracasso.”

Jean-Paul Sartre. O ser e o nada.

PAISAGEM CONTEMPORÂNEA É UM VASTO LUGAR DE PASSAGENS: NEM PERTO NEM LONGE | NEM PASSADO NEM PRESENTE | ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO | ENTRE O FIGURATIVO E O ABSTRATO | ENTRE O MOVIMENTO E O REPOUSO | ENTRE O VISÍVEL E O INVÍSIVEL | ENTRE UMA COISA E OUTRA | Deleuze

A escola, armada por uma nova trama de circuitos de transporte e comunicação, rasga-se em todas as direções. Um estilhaçamento que a converte num amálgama de áreas desconectadas. Espaçamento e desmaterialização são mecanismos dos fluxos nos espaços. Ao avançar, a escola deixa um vácuo atrás de si.

Hiatos na narrativa urbana, interrupções no seu contínuo histórico, estes espaços intermediários não são simplesmente passivos, zonas mortas. Eles provocam rearticulações no desenho da escola, pela conexão de elementos afastados. A escola se constrói entre suas áreas de assentamento, entre suas zonas de ocupação, no meio.

Hoje, toda experiência arquitetônica implica ruptura, distância. Tentativa de articulação de um espaço fragmentado, através das intransponíveis descontinuidades entre suas partes.

Ao escolher o espaço entre a biblioteca e o corredor, o projeto está propondo situações concretas que comportam esses elementos de ruptura e sirvam de ponto de partida para reflexões e práticas de intervenção. Interferências que reflitam a ruptura da escala humana, própria da escola tradicional, provocada pela escala da nova situação. A supressão de um padrão de medida introduz uma estrutura descontínua e relações sem hierarquia.

Uma situação que coloca a questão da grande escala. Os recentes projetos urbano-arquitetônicos gigantescos, desenvolvidos em várias partes do mundo, contrariam, por sua própria enormidade, as concepções tradicionais de interior e exterior, localização e espaço urbano. Escapam à percepção formal. Dimensões que implicam em incomensurabilidade. O impacto da escala dissolve toda veleidade de continuidade espacial. Formas dispostas sem proporção, sem medida comum. Como a Torre de Babel, a megalópole nos defronta com aquilo que não tem limites, com o imensamente grande.

Entre a biblioteca e o corredor constitui-se um campo desmesuradamente ampliado. Para além de qualquer escala urbano-arquitetônica. Nenhum aparato visual de pequena escala pode articular esses pontos. Não há qualquer seqüência possível, nenhuma continuidade. Um espaço que nenhum gesto pode cerzir, que nenhum dispositivo técnico de pequena escala pode integrar.

Como intervir nessa escala, nesta extensão sem contornos nem fim? Estas situações concretas servem para propor um campo que abole sua efetiva localização. A preservação ou fixação de pontos significativos de referência são excluídos.

Em vez disso, impõe-se um outro tipo de intervenção: superposição, em escalas diferentes, de diversos planos, de modo a misturar todas as referências fixas, anulando as marcas tradicionais da escola. Predileção por figuras de limite, entre o material e o virtual, a arquitetura e a pintura, o urbanismo e o cinema. Interferências simultâneas em outras áreas implicam a justaposição delas, uma colagem que opera por contiguidade. Uma nova cartografia surge deste desdobramento, um novo espaço formado por essas inusitadas rearticulações.

Se bem observarmos, a ocupação do espaço constituiu uma desocupação. Desarticulou-se qualquer potencialidade de interação entre ele e o entorno imediato, invocando o seu próprio fechamento interior. Complexamente, uma intervenção ao lado bloqueou sua entrada, criando uma espécie de barreira visual intransponível. Via-se uma possibilidade de interação, mas faixas listradas de amarelo e preto funcionavam com fatores de impedimento. Impressionante como uma simples faixa produz um efeito tão grande de afastamento das pessoas.

A intervenção consistiu em uma plataforma sensorial configurada como discos de 1 metro de diâmetro, feitos de lona plástica, colocados em vãos centralizados. O local definido é um gramado extenso localizado entre a biblioteca e o prédio de aulas, que compreende as salas de 1 a 8. Dentro dos discos foram dispostos elementos físicos que evocam a sensorialiedade tátil, conduzindo quem pisasse à experiências e sensações evocadas pelo pé. Foram utilizadas diferentes densidades, texturas e durezas nos objetos submersos ao olhar, como pedras, espumas, bolas de gude, isopor, e gel fluido.

Como resultado da intervenção, podemos inferir que não houve interatividade com as pessoas que ficaram limitadas a entrar, devido as faixas de proibido, o que conduziu a novos questionamentos, como liberdade entrecortada por elementos simples.

Na intervenção, a escola se amplia em paisagem e, ao mesmo tempo, se converte em interior, miniatura. Alarga-se como um horizonte ao ser condensada num cenário. O panorama é como as passagens, uma fantasmagoria da paisagem. Aí reside, o interesse do panorama: “nele é que se vê a verdadeira cidade”. A paisagem dentro de uma garrafa. Não viria daí o prazer eterno que – como o teatro, que fecha as portas logo que começa o espetáculo – proporcionam essas rotundas sem janelas?

Daí a semelhança com a cidade. Os passantes nas arcadas parecem habitantes de um panorama. Os dispositivos óticos – como as outras intervenções não têm exterior. A paisagem é construída em trompe-l’oeil, a intervenção dissolve-se em visualidades não visíveis. De lugar de destaque na paisagem, ela perde em anonimato, e deixa-se vazia, escondida e despercebida. Vira uma incógnita puramente especulativa no campo visual, deixa de ser intervenção, vira quadro.

Livre adaptação do texto Cidade Desmedida de Nelson Brissac Peixoto, disponível em: http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/brasmitte/portugues/cidadedesmedida.html

Referências:

· J. Derrida, Point de folie – Maintenant, l’ architecture, in Psyché, Galilée, Paris, 1987.
· P. Eisenman, Entre linhas / Museu de Berlim, Revista AU, 36, São Paulo, jun-jul 91.
· R. Koolhaas, S,M,L,XL, 010 Publishers, Rotterdam, 1995

UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

ESCOLA DE MINAS

ARQUITETURA E URBANISMO

PROJETO ARQUITETÔNICO II

ALUNOS: ANA LUISA DUARTE

CÉZAR AUGUSTO FIGUEREDO

LUCAS RAMOS FREITAS

ORIENTADORES: CLÉCIO MAGALHÃES

MAURÍCIO LEONARD