VIDEO-MAPA – MAPA SENSORIAL DA ESCOLA DE MINAS UFOP

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM O CORAÇÃO.

Sombra e Luz sob a ótica do mapeamento cego.

“Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.” Com o brilhantismo poético de Clarisse Lispector, enreda-se rodo o processo de mapeamento da Escola de Minas.

Já sabido e vivido por todos, o processo do caminhar cego abriu um novo olho perceptivo em nós. Não se tratou de simplesmente criar um percurso de um lugar a outro, mas de produzir um movimento que afete simultaneamente todo o espaço. Inúmeros caminhos eram possíveis, não se pôde estabelecer um itinerário privilegiado. O mapa aqui abordado não é uma localização, mas um deslocamento, um transitar entre as coisas. Tudo o que temos é uma zona sem traçado nem fronteiras.

Esses deslocamentos, tensionados, contidos e desorientados, vêem marcar um oposição a indiferença visual que o espaço cria ao andarmos sem vendas. Surgimos observadores e detetives, com passos lentos e sem direção, atravessando como alguém que contempla um panorama, observando calmamente os tipos e lugares que cruzam nosso caminho. Observamos, registramos e interpretamos através dos outros sentidos, da experiência individualizada, dos traços gráficos que o espaço cria no nosso corpo e que só se desvelam ao termos a visão bloqueada. Caminhamos pelos corredores solitários e em estado de embriaguez. A paisagem já conhecida da escola proporciona uma nova percepção. Walter Benjamin descreve com propriedade o flâneur e podemos, dadas as diferenças do processo de visão e subtração desta, utilizar essa descrição para descrevermo-nos no processo de errar: “detentor de todas as significações urbanas, do saber integral da cidade, do seu perto e do seu longe, do seu presente e do seu passado”.

Esse processo levou a uma nova percepção espacial, trata-se de aprender a olhar com as sensações. Essa nova espacialidade apresentou-se efêmera, transitório e fragmentado. Derivando sua documentação cartográfica, corpo-cartográfica, ou corpográfica em não lugares. Os não-lugares, produtos da contemporaneidade, opõem-se à noção de lugar antropológico. A deriva apenas cria probabilidades de percursos e encontros. A questão é a distância e a tensão entre os locais. A contemporaneidade caracteriza-se por esta constante mudança, rompimento ou “deslocamentos”. Estamos imersos numa sociedade onde a segurança existencial é obtida através imagens captadas pelos olhos, as quais julgamos reais. O exercício levou a cer que não é verdadeira, assim, a crença de que para viver é preciso enxergar tudo como é, sem sequer desconfiar que o sentido pode sempre variar com relação ao que nós reconhecemos como verdadeiro. Vale ressaltar que ver, conhecer de fato um objeto, não é um processo diretamente ligado à aptidão e capacidade visual do indivíduo: o que vemos é modificado por nossos conhecimentos, cultura, valores, emoção e, principalmente, pela imaginação, que transfigura o mundo.

Apontamos, portanto, a inutilidade de se ver no mundo contemporâneo, onde a própria proliferação de imagens causa cegueira, imagens essas dotadas de signos que não conseguem nada significar. Nos dizeres do escritor José Saramago: “Hoje estamos vivendo de fato na Caverna de Platão. Pessoas olhando em frente, vendo sombras, e acreditando que estão vendo a realidade…Perdidos de nós próprios e na relação com o mundo, não seremos nada.” A partir disso surge o mapa dos não lugares exibido nesse vídeo.

Para terminar portando, colocamos em cheque a proposta de definição espacial que a arquitetura vem carregando através dos tempos, como dona da habilidade de concretizar ambiências, configurar espacialidades, conduzir fluxos e ampliar sensações, através da materilialidade espacial, na esfera do visível. Será que não seria correto dizermos que “Tudo o que não invento é falso, e tudo o que crio é ficção”?

TRABALHO APRESENTADO A DISCIPLINA PROJETO ARQUITETÔNICO II
GRUPO:
ANA LUISA DUARTE
CEZAR AUGUSTO FIGUEREDO
LUCAS RAMOS FREITAS
ORIENTADORES:
CLÉCIO MAGALHÃES
MAURICIO LEONARD
OBJETIVO:
MAPA DA ESCOLA DE MINAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO