Artigo cientifico – Espaço Urbano Pós-Moderno e a Arquitetura

O ESPAÇO URBANO PÓS-MODERNO E A ARQUITETURA

Universidade Federal de Ouro Preto- Minas Gerais

Escola de Minas

Departamento de Arquitetura e Urbanismo

Sociologia Aplicada a Arquitetura e Urbanismo

Ana Luísa Duarte Santos Pereira

al.duarte.88@gmail.com

RESUMO

O artigo faz uma junção entre o espaço urbano pós-moderno e a arquitetura. Para elaboração de projetos, acredita-se ser necessário voltar à tona o debate sobre assuntos pertinentes ao chamado pós-modernismo, corrente esta que tentou questionar os paradigmas estabelecidos pelo Modernismo, mas que, entretanto, não consegue manter sua força. Cabe ressaltar que o pós-moderno aqui não se trata do que se poderia chamar de “estilo arquitetônico”, antes aborda a realidade que vive a sociedade contemporânea, fruto de um modelo falido, ainda que bem intencionado, que foi Urbanismo Modernista.

PALAVRAS-CHAVES: pós-moderno, arquitetura.

ABSTRACT
The article makes a junction between the post-modern urban space and architecture. For development projects, is believed to be necessary to return to the debate on issues relevant to the call postmodernism, this chain that tried to question the established paradigms for Modernism, but which, however, can not maintain its strength. It is noteworthy that the post-modern here is not what one might call “architectural style”, before addressing the reality that lives in contemporary society, the result of a failed model, although well intentioned, it was Urban Modernist.

KEYWORDS: post-modern, architecture.

1. INTRODUÇÃO

Grande parte dos profissionais arquitetos e urbanistas da nova geração dão mostras de não estarem envolvidos com a discussão sobre os caminhos a serem tomados pela sua profissão, muitas vezes negligenciando o objetivo maior que é o ser humano. Fazem-se obras referenciadas em imagens muitas vezes desprovidas de significado e, quanto ao espaço urbano, este ainda é pensado dentro de uma metodologia que está comprovadamente ultrapassada.

O objetivo geral deste trabalho é instigar a discussão sobre a necessidade de se repensar a produção da arquitetura tendo como parâmetro a qualidade de vida. Como objetivos específicos, pretende-se apontar os principais pontos dos assuntos estudados, deixando claro que todos eles possuem um leque muito maior de conceitos que, pela limitação física, não poderiam ser amplamente discutidos neste ensaio. É assunto de interesse, sobretudo de arquitetos urbanistas, bem como de gestores e profissionais envolvidos na construção das cidades.

A metodologia proposta é da pesquisa baseada em material científico de autores consagrados, buscando conceitos sobre arquitetura, espaço urbano e pós-modernidade. Após essa conceituação, espera-se com a discussão e reflexão dos temas que possa ser acareada a interdisciplinaridade dos assuntos, verificando sua real importância.

2. ARQUITETURA E A SUA RELAÇÃO NO ESPAÇO URBANO PÓS-MODERNO

Discorrer sobre assuntos com particularidades como os tratados no presente artigo, exige que seja feita uma desconstrução do tema, promovendo sua melhor compreensão.

2.1 – Arquitetura

A paisagem urbana é reflexo da relação entre o homem e a natureza, podendo ser interpretada como a tentativa de ordenamento do entorno com base em uma paisagem natural, e de uma cultura, a partir do modo como é projetada e construída, como resultado da observação do ambiente e da experiência individual ou coletiva com relação ao meio. Complementando, segundo Cullen (2002), pode-se entender como arquitetura a edificação de forma isolada, porém, ao ser somada a outras edificações, equipamentos e estruturas urbanas, passa então a ser compreendida como paisagem urbana.

A arquitetura e sua relação com os elementos formadores da cidade, é objeto carente de atenção, interesse e respeito por parte dos responsáveis pelo planejamento urbano, no entanto, quando observado os jogos de interesse promovido principalmente pelo mercado imobiliário, o que se percebe é um constante empobrecimento dos cenários urbanos. Soma-se a isso a baixa qualidade na formação, não de todos, mas de boa parte dos arquitetos e urbanistas contemporâneos no Brasil que, apesar de novos recursos tecnológicos para a produção de projetos, bem como as facilidades oferecidas pelos novos meios de comunicação, constantemente atem-se na procura de imagens, muitas vezes vinculadas à realidades de clima e cultura distinta das brasileiras. Observa-se a baixa qualidade intelectual de boa parte dos novos profissionais a qual permite maior grau de discernimento, capacita a resolução de problemas e promove uma arquitetura brasileira.

2.2 – Pós-modernismo

Sob o ponto de vista único e rápido do vocabulário arquitetônico, a pós-modernidade seria classificada como um estilo, baseado em reação quanto ao Movimento Modernista onde é adotado certo ecletismo e ironia no uso das formas (Burden, 2006). No entanto aprofundando mais o tema e ao assunto geral podemos da continuidade explicando como o pós-modernismo provoca uma ruptura no campo da arquitetura e do projeto urbano. Isso acontece pois muitos desses planos não se concentram em planos urbanos de larga escala, de alcance metropolitano, tecnologicamente racionais e eficientes, sustentados por uma arquitetura despojada. (Harvey, 1992:69)

O pós-modernismo cultiva um tecido urbano fragmentado, submetendo-se às tradições puras, as históricas locais, aos desejos e necessidades e fantasias particulares – gerando formas arquitetônicas especializadas.

Cria espaços íntimos e personalizados, submetendo-se ao espetáculo e chegam a uma monumentalidade tradicional erguida pelo Ecletismo de estilos arquitetônicos. (Harvey, 1992:69)

Enquanto os modernistas vêem o espaço como algo a ser moldado para propósitos sociais e, portanto, sempre subserviente à construção de um projeto social, os pós-modernistas o vêem como uma coisa independente e autônoma a ser moldada segundo objetivos e princípios estéticos que não tem necessariamente nenhuma relação com algum objetivo social, abrangente, salvo, talvez, a consecução da intemporalidade da beleza desinteressada” (Harvey, 1992:69)

A cidade é uma mistura complexa. A aparência dela e o modo como os seus espaços se organizam formam uma base material a partir da qual é possível pensar, avaliar e realizar uma série de possíveis sensações práticas sociais.

A arquitetura e o projeto urbano tem sido foco de um considerável debate polêmico sobre as maneiras pelas quais, os juízos estéticos podem ou devem ser incorporados a uma forma espacialmente fixada e com que efeitos na vida diária. A arquitetura comunica!

O modelo ideal seria: a “boa cidade”: tendo a totalidade de suas funções fornecidas dentro de distancias a pé, compatíveis e agradáveis”. Não deveria crescer em altura ou largura, mas por multiplicação, de comunidades urbanas complexas e finitas.

Ex: um quarteirão urbano independente, dentro de uma grande família de quarteirões urbanos, que formam “cidades no interior de uma cidade”.

Os pós-modernistas europeus ansiavam pela restauração daquele tecido urbano mais antigo e sua reabilitação para novos usos, com a criação de novos espaços que exprimissem as visões tradicionais, porém usando de todo avanço, tecnologias que os materiais modernos permitem.

2.3 – Explicação para a organização urbana do pós-modernismo (especialmente logo após o Pós-guerra)

Amplos e graves problemas políticos, econômicos e sociais e temiam voltar as condições do pré-guerra entre ele podemos citar: recessão econômica, fome, desemprego,habitações deterioradas e penúria, instabilidade política.

Os modernistas perseguiram assim o ideal de pleno emprego, de habitação decente, de previdência social, do bem estar.

A reconstrução do território, reformulação e renovação do tecido urbano se torna um ingrediente essencial do projeto Moderno, pelo estado de necessidade, tiveram grande aceitação. Retratados em eventos importantes como os CIAM’S – Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna e nas propostas de personalidades como Le Corbusier (Francosuíço) e Frank Lloyd Wright (Americano).

Varias soluções foram exploradas na Europa, exemplificando a Inglaterra que restringiu a sub-urbanização e a substituiu pelo desenvolvimento planejado, eliminou habitações miseráveis e construiu casas, escolas, hospitais, fabricas etc e começou uma produção industrial ligada a arquitetura.

Já os Estados Unidos seguem padrões bem diferentes, ele usou da sub-urbanização rápida e pouco controlada desenvolvida pela iniciativa privada, mas recebendo subsídios do governo e deterioração do centro das cidades provocada pelo desemprego – provocou uma renovação urbana através da demolição e reconstrução urbana através da demolição e reconstrução de centros urbanos mais antigos. Para esclarecer melhor usamos o exemplo da Região Metropolitana de Nova York: por meio da reconstrução de auto-estradas e de pontes, do planejamento de parques urbanos e da renovação urbana, usando também sistemas de construção industrializada.

Tais tentativas não devem configurar-se como puro fracasso, pois, várias cidades arrasadas pela Segunda Guerra foram reconstruídas rapidamente e com acomodações criadas eram bem melhores que no período anterior à guerra. Além de habitação, houve melhora nos equipamentos sociais materiais.

Padronização e linha de montagem contribuíram para a uniformização da arquitetura, tão criticada posteriormente (dominada pelos ditames do custo e da eficiência, associadas às restrições organizacionais e tecnológicas) Anos 50 – auge do “Estilo Internacional” – Arquitetura Moderna. A crítica severa vem após esse apogeu, e bastante forte também são os fatores político econômicos, tanto no modernismo, quanto no pós- modernismo.

2.4 – Espaço Urbano

Jane Jacobs sugere ver a cidade com os seus processos sociais. Pois existem nesse sistema de complexidade emana uma energia de interação social, que depende crucialmente da diversidade.

Muitos urbanizadores urbanos modernos temiam lidar com o caos e a complexidade, pois considerava-os desorganizados, feios e irracionais, não conseguiram solucionar os problemas nem fornecer soluções estéticas adequadas.

Aparentemente parece que o pós-modernismo procura descobrir maneiras de exprimir essa estética de diversidade.

Arquitetura Pós-Moderna tem suas raízes em duas mudanças tecnológicas significativas: A comunicações contemporâneas – derrubam fronteiras de espaço-tempo; E as novas tecnologias (auxiliados por modelos computadorizados) não existem mais a necessidade de produção em massa e repetição em massa. Permite-se agora produção em massa flexível, “de produtos quase personalizados”.

As transformações tecnológicas e culturais observadas nos últimos séculos contribuíram para uma sensível transformação do meio urbano. Primeiro pelo seu acelerado crescimento, segundo pelas modificações necessárias para sua implantação em função da necessidade de abrigar novos equipamentos e utensílios.

O arquiteto e o projetista urbano pós-moderno podem aceitar com mais facilidade o desafio de se comunicar com grupos distintos de clientes de maneira personalizada ao mesmo tempo em que talham produtos para diferentes situações, gostos culturais e funções. Passam a lidar com vários  elementos, antes considerados “desnecessários” pelos modernos como: Marcas de Status, história, comércio, conforto, domínio ético, sinais de familiaridade com o locus etc.

Orgulhoso de sua soberania intelectual e com o deslumbre do que poderia ser o futuro e sua nova realidade, o homem praticamente muda toda sua forma de conceber e usar o espaço urbano, priorizando a máquina, setorizando a cidade e fracionando o convívio, dentro de um pensamento puramente racional no que se nomeia hoje como urbanismo progressista.

2.5 – Espaço Urbano, Pós-Modernismo, Mercado (Economia) e Arquitetura

Jane Jacobs fala que devemos perceber e saber lidar com os problemas da minoria e dos desprivilegiadas ou os diversos elementos contracultuais, concebendo um sistema democrático e igualitário atendendo a necessidade de ricos e pobres.

De acordo com ele, a arquitetura e o projeto urbano tende a ser desavergonhadamente orientado para o mercado e corre o risco de atender mais o consumidor rico e privado e não o pobre e público.

Gentrificacão (Gentrification) – Surgimento de uma camada social média.

Yuppies – Jovens profissionais urbanos.

O populismo do livre mercado encerra as classes médias em espaços fechados e protegidos dos shoppings e coloca os pobres em paisagem pós-moderna de falta da habitação.

A ênfase nos ricos e o consumo levaram a uma ênfase muito maior na diferenciação de produtos no projeto urbano. Assim, os arquitetos e planejadores urbanos re-enfatizaram um forte aspecto e acumulação do capital: O “Capital Simbólico” a acumulação de bens e consumo desenfreado que distinguem quem o possui. – Traduz-se em formas “materiais de capital”. A preocupação direta com aparências superficiais que ocultam significados subjacentes e o domínios de gosto e cultura.

A procura de meios de comunicar distinções sociais através da aquisição de todo tipo de símbolos de status há muito é uma faceta central a vida urbana” (Harvey, 1992:81)

O ornamento e a revivescência de estilos serviu bem ao suburbano de classe média. Surge um fascínio pelo ornamento, embelezamento, e pela decoração, como códigos e símbolos de distinção social. O resultado de tal fascínio é a fragmentação, fazendo a tarefa do arquiteto ser participar livremente da produção de monumentos que exprimam a memória coletiva.

Muitos pós-modernistas apenas acenam para uma legitimidade histórica por meio de uma extensa e muitas vezes eclética citação de estilos do passado.

A inclinação pós-moderna de acumular toda a espécie de referencias a estilos passados é uma de suas características mais presentes.

A indústria da herança e o pós-modernismo conspiraram para criar uma tela oca que intervém em nossa vida presente a nossa história. Não se tem uma compreensão profunda da história percebe-se em vez disso uma criação contemporânea, que é mais um drama e uma re-representação de costumes do que discurso crítico.

O Ecletismo é o grau zero da cultura geral contemporânea, Ouvimos reaggae. Assitimos faroeste almoçamos Mc Donalds e jantamos corrida local, usamos perfume Francês em Paris em Tóquio e roupas retrô em Hong Kong. (em referência a isso, ler paginas 87 e 88)

A partir da década de 1970, no EUA (em Baltimore – houve a necessidade de reconstrução de centro da cidade, quebrar paradigmas). Superar as divisões e a mentalidade de cada cidadão e os espaços públicos. (Medo e ao uso das áreas do centro da cidade)

Essa renovação exigia uma arquitetura do espetáculo, totalmente diferente do modernismo austero, mas sim aquele que trouxesse um brilho especial, participativo e Transitório. De exibição e efemeridade. (Harvey: 92, ver também 93 e 94)

A linha que surgiu de frente ao pós-modernismo é o desconstrutivismo em reação a unanimidade, da falta de rigor teórico e concepções populistas. O desconstrutivismo procura recuperar os altos padrões da elite e da prática arquitetônica vanguardista através da desconstrução do pós-modernismo.

Ele compartilha com o modernismo a preocupação de explorar a forma e os esboços puros, mas o faz de uma maneira que concebe o prédio, não como um todo unificado, mas como textos e partes disparatados, distintos e não alinhados, sem adquirir sentido de Unidade (95). A fragmentação, o caos, a desordem, permanecem como temas centrais.

Essa produção arquitetônica tem muita coisa em comum, com praticas e o pensamento de muitos outros campos, como a arte, a literatura, a teoria social, a psicologia, a filosofia.

2.6 – O Espaço Urbano Pós-Moderno e a produção arquitetônica no Brasil

A produção da arquitetura e do espaço urbano no Brasil, passa por um momento perigoso. Este fato deve-se pela constatação de que o modo de se planejar as cidades, baseado em  soluções de ordem técnicas característica do urbanismo progressista, já não atende às questões impostas pela nova realidade. Não obstante, observa-se que grande parte dos arquitetos urbanistas, profissionais legalmente responsáveis pela intervenção nestes espaços, ainda trabalha de forma tecnicista, ou seja, pensando as cidades de forma a resolver problemas de tráfego e considerando o homem como um ente que se adapta às vontades do criador. Talvez esta postura seja conseqüência de um ensino deficiente, porém presente em cursos de arquitetura e urbanismo, de planejamento urbano.

Faz-se necessário nas discussões desta disciplina, considerar em primeiro lugar o ser humano e sua cultura bem como o plano para a cidade contemporânea e sua relação com o ambiente natural, em uma filosofia de planejamento ambiental urbano.

O planejamento urbano, além da estruturação da cidade para suas atividades normais, de atendimento às questões relativas a habitação, trabalho, transporte, lazer, etc, deve considerar a capacidade de sustentação ambiental do ambiente natural sobre o qual a cidade se desenvolve. Não é mais admitido o desenvolvimento a qualquer preço, e ainda mais quando o mais prejudicado é o meio ambiente. A saúde da população brasileira é afetada diretamente na proporção que o ambiente urbano é degradado, resultando no reaparecimento de doenças antes erradicadas com grandes sacrifícios de toda a população. A dengue, a cólera e outras doenças não ocorrem em cidades ambientalmente sadias. O espaço urbano é consequência também da produção arquitetônica, foco principal deste trabalho daí que, para a construção da nova maneira de se produzir arquitetura e a cidade.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo possibilita aos interessados uma visão mais abrangente das inter-relações dos vários temas abordados, propiciando maior informação. Neste sentido, foi possível observar as características principais de cada um dos temas bem como a já citada inter-relação dos mesmos. Pôde-se ainda, constatar a importância de um trabalho sócio-cultural, onde os estudos sobre a produção da arquitetura e do espaço urbano passam por aspectos não só técnicos, mas também por outros de ordem subjetiva. O tema é amplo e carente de estudos aprofundados onde se possa averiguar de forma metodológica os principais pontos levantados neste ensaio: intelectualidade, processo de ensino, cultura, produção do espaço.

A principal contribuição deste artigo é justamente incitar a temática, com o desejo de que os arquitetos e urbanistas questionem seu papel social e encontrem uma forma original de se expressar, tendo como fruto a melhor produção da arquitetura e do espaço urbano.

4. REFERENCIAS

ARANTES, Otília. Uma estratégia fatal: a cultura nas novas gestões urbanas. In: ARANTES, Otília, MARICATO, Ermínia e VAINER, Carlos (orgs). A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Rio de Janeiro: Vozes, 2000, p. 11-74.

HARVEY, David. Condição pós-moderna. 7a ed. São Paulo: Loyola, 1992.

COLIN, Silvio. Pós-Modernismo: repensando a arquitetura. Rio de Janeiro: UAPÊ, 2004.

BURDEN, Ernest. Dicionário Ilustrado de Arquitetura – 2ª edição. São Paulo: Bookman, 2006.

VIANA, Profª Alice. Material de teoria urbana – A cidade, a produção de teoria sobre a cidades.

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